“Você agrediu meu rosto”, afirmou a policial ao marido dias antes de falecer.

'Você enfiou a mão na minha cara', disse PM a marido dias antes de morrer

Por Lucas Jozino, Rodrigo Rodrigues, TV Globo e g1 SP — São Paulo


  • Mensagens extraídas pela Corregedoria da Polícia Militar do celular do tenente-coronel Geraldo Neto, preso sob suspeita de matar a esposa, a PM Gisele Alves Santana, apontam que ela teria sido agredida fisicamente por ele 13 dias antes de morrer no apartamento onde o casal vivia, no Brás, região central de São Paulo.

  • A PM Gisele morreu no dia 18 de fevereiro. De acordo com a Corregedoria, “as extrações das mensagens trocadas entre a Sd PM Gisele e o oficial revelam, inclusive, episódio que sugere a ocorrência de violência física praticada contra a vítima”.

  • O crime ocorrido no Brás foi inicialmente classificado como suicídio. A denúncia da família sobre o relacionamento tumultuado entre os dois, no entanto, levou a Polícia Civil a aprofundar as investigações do caso.

O tenente-coronel Geraldo Neto, preso por suspeita da morte da esposa Gisele Alves Santana. — Foto: Reprodução/Redes Sociais

O tenente-coronel Geraldo Neto, preso por suspeita da morte da esposa Gisele Alves Santana. — Foto: Reprodução/Redes Sociais

Mensagens extraídas pela Corregedoria da Polícia Militar do celular do tenente-coronel Geraldo Neto, preso sob suspeita de matar a esposa, a PM Gisele Alves Santana, apontam que ela teria sido agredida fisicamente por ele 13 dias antes de morrer no apartamento onde o casal vivia, no Brás, região central de São Paulo.

Segundo relatório de investigação ao qual a TV Globo teve acesso, no dia 6 de fevereiro os dois trocaram mensagens nas quais Gisele afirma que o marido estava “sempre caçando um motivo para brigar” e que teria agredido e gritado com ela no dia anterior, 5 de fevereiro de 2026.

“Você sempre caçando um motivo para brigar. Mas você vai ver só. Você enfiou a mão na minha cara ontem. Gritou comigo hoje”, escreveu.

A PM Gisele morreu no dia 18 de fevereiro. De acordo com a Corregedoria, “as extrações das mensagens trocadas entre a Sd PM Gisele e o oficial revelam, inclusive, episódio que sugere a ocorrência de violência física praticada contra a vítima”.

“A expressão ‘enfiou a mão’ em seu rosto, no contexto do diálogo, indica possível agressão física sofrida pela vítima. Tal registro evidencia que, antes mesmo do evento fatal ora investigado, a Sd PM Gisele já estaria submetida a um ambiente relacional marcado por comportamentos agressivos e potencialmente violentos”, concluíram os investigadores.

Imagens mostram o tenente-coronel Geraldo Neto preso pela morte da mulher

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O crime ocorrido no Brás foi inicialmente classificado como suicídio. A denúncia da família sobre o relacionamento tumultuado entre os dois, no entanto, levou a Polícia Civil a aprofundar as investigações do caso.

A conclusão, após laudos periciais 30 dias depois do crime, é de que Gisele Alves não teria se matado, mas sim sido vítima de homicídio. O tenente-coronel Geraldo Neto foi indiciado pelos crimes de feminicídio e fraude processual.

Humilhações e machismo

Caso Gisele: provas vão contra versão apresentada por Geraldo Neto

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Em um dos diálogos, ela escreve que Geraldo Neto teria que mudar o comportamento “babaca” e “sem escrúpulos”.

“Não dá para entender. Você pediu para eu não ir embora. Eu fico e você continua igual, até pior, com seu tratamento. Falando coisas para me humilhar, para me provocar”, escreveu a PM, morta com um tiro na cabeça.

“Se você quer separar, vamos separar. Mas, se você continuar, vai ter que mudar seu comportamento estúpido, ignorante, intolerante e sem escrúpulos. Estou deixando bem claro para você que não vou aguentar muito tempo esse comportamento babaca”, afirmou.

Gisele Alves Santana também reclamou: “Toda hora jogando piada, me chamando de burra, mandando arrumar um soldado. O que a função tem a ver com relacionamentos?”, disse.

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Em outras mensagens, segundo a investigação, Geraldo Neto faz declarações machistas contra a esposa: “Lugar de mulher é em casa, cuidando do marido. E não na rua, caçando assunto. Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho”, declarou.

A PM Gisele Alves Santana e o tenente-coronel Geraldo Neto, acusado de assassinar a mulher no apartamento onde eles viviam, no Centro de São Paulo. — Foto: Reprodução/TV Globo

A PM Gisele Alves Santana e o tenente-coronel Geraldo Neto, acusado de assassinar a mulher no apartamento onde eles viviam, no Centro de São Paulo. — Foto: Reprodução/TV Globo

Para a Corregedoria da PM – que pediu a prisão do tenente-coronel – os diálogos revelam a “concepção de relacionamento baseada em submissão e hierarquia no âmbito doméstico”.

“Tais manifestações não se apresentam como meros desentendimentos ocasionais entre um casal, mas sim como indícios de violência psicológica reiterada, caracterizada por tentativas de controle, constrangimento e desqualificação da autonomia da Sd PM Gisele”, disse a investigação.

Na visão dos investigadores da PM, “antes mesmo do evento fatal investigado, a Sd PM Gisele já estaria submetida a um ambiente relacional marcado por comportamentos agressivos e potencialmente violentos”.

“O conteúdo extraído do aparelho celular não apenas confirma o contexto de conflito conjugal anteriormente relatado por testemunhas, como também evidencia elementos objetivos de violência psicológica e dinâmica relacional marcada por tensão e controle, circunstâncias que assumem relevância para compreensão do ambiente em que se inserem os fatos investigados”, disseram os policiais corregedores que investigam o caso.

Mensagens trocadas entre o tenente-coronel Geraldo Neto e a esposa PM Gisele Alves Santana. — Foto: Reprodução/TV Globo

Mensagens trocadas entre o tenente-coronel Geraldo Neto e a esposa PM Gisele Alves Santana. — Foto: Reprodução/TV Globo

Prisão em São José dos Campos

A Justiça Militar decretou nesta terça-feira (17) a prisão preventiva do tenente-coronel Geraldo Neto. Ele foi preso pela Corregedoria da Polícia Militar (PM) em São José dos Campos, interior do estado, por volta das 8h17 desta quarta-feira (18).

Por meio de nota, a defesa do oficial reagiu à prisão de seu cliente alegando que ela não poderia ter sido feita pela Justiça Militar (leia a íntegra mais abaixo).

Veja o momento que tenente-coronel deixa condomínio com policiais no interior de SP

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“A Justiça Militar é incompetente para analisar, processar e julgar o caso e, especialmente, para decretar medidas cautelares”, disse o advogado Eugênio Malavasi, que defende Geraldo. O criminalista vai suscitar conflito de competência com a Justiça comum.

Antes de ser detido, o coronel alegava que a esposa havia se suicidado após uma discussão. Mas essa versão caiu por terra após a Polícia Civil passar a investigar o caso como morte suspeita e laudos periciais indicarem que Geraldo matou a soldado (saiba mais abaixo).

A Corregedoria da PM pediu a prisão do coronel com base na investigação da Polícia Civil, que um dia antes o indiciou pelos crimes de feminicídio (homicídio contra mulher por questões de gênero) e fraude processual (ter adulterado a cena do crime).

Coronel Geraldo Neto (ao centro) é preso pela Corregedoria da PM por suspeita de matar a esposa, a soldado Gisele Alves — Foto: Reprodução/TV Globo

Coronel Geraldo Neto (ao centro) é preso pela Corregedoria da PM por suspeita de matar a esposa, a soldado Gisele Alves — Foto: Reprodução/TV Globo

Ainda na terça-feira (17), a delegacia que investiga o caso também pediu a prisão de Geraldo, mas a Justiça comum ainda não havia se manifestado. A decisão de prender o coronel saiu antes pela Justiça militar.

O que diz a Justiça Militar

Por meio de nota, o Tribunal de Justiça Militar (TJM) informou que “a prisão preventiva foi decretada com base na garantia da ordem pública, na conveniência da instrução criminal e na necessidade de preservação da hierarquia e disciplina militares”.

“O magistrado destacou o risco de interferência nas investigações, inclusive pela possibilidade de influência sobre testemunhas, além da gravidade concreta dos fatos apurados. A decisão também autorizou a apreensão de aparelhos celulares, a quebra de sigilo de dados eletrônicos e o compartilhamento de provas com a Polícia Civil, que conduz investigação paralela”, informa trecho do comunicado do TJM.

O tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, marido da policial militar Gisele Alves Santana. — Foto: Reprodução/TV Globo

O tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, marido da policial militar Gisele Alves Santana. — Foto: Reprodução/TV Globo

Na determinação, o juiz militar também determinou que “o investigado deverá ser submetido a audiência de custódia, conforme previsto na legislação vigente” e as investigações prosseguem para o completo esclarecimento dos fatos.

Também por nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que o coronel seguirá preso para o 8º Distrito Policial (DP), Brás, no Centro de São Paulo, onde Geraldo é investigado pelo assassinato de Gisele. Ele será interrogado e passará por exames de corpo de delito.

Após isso, irá para o Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte da capital. “O Inquérito Policial Militar (IPM) será concluído nos próximos dias”, informa o comunicado da pasta da Segurança.

O que diz a defesa do tenente-coronel

Leia abaixo a íntegra da nota enviada pelo escritório de advocacia Malavasi Sociedade de Advogados, que faz a defesa de Geraldo Neto.

“Ante o recente decreto dúplice de prisão do Tenente-Coronel pelos mesmos fatos tanto perante a Justiça Militar quanto pela Justiça Comum, a defesa encontra-se estarrecida pela manutenção da competência de ambas as jurisdições.

Informa que sabedor dos pedidos de prisão em seu desfavor desde a data do dia 17/3 não só não se ocultou, como forneceu espontaneamente comprovante de endereço perante a Justiça, local onde foi cumprido o mandado de prisão, ato ao qual, embora manifestamente ilegal pois proferido por autoridade incompetente, não se opôs, tendo mantido a postura adotada desde o início das apurações de colaboração com as autoridades competentes.

Informa, por fim, que já ajuizou Reclamação perante o STJ contra o decreto oriundo da Justiça castrense e que estuda o manejo de habeas corpus quanto à decisão da 5ª Vara do Júri da Capital.

Reitera que seguem sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade.

A intimidade, a vida privada, a honra e a imagem constituem direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal (art. 5º, X), razão pela qual a divulgação de elementos pertencentes a essas esferas encontra limites nas garantias constitucionais, sendo certo que, no momento oportuno, sua equipe jurídica irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha vilipendiar tais direitos em relação ao Tenente-Coronel.

Por fim, o escritório reafirma sua confiança na atuação das autoridades responsáveis pela condução das investigações e reitera que o Tenente-Coronel aguarda a completa elucidação dos fatos.”

Laudos apontam feminicídio

Tenente-coronel Geraldo Neto é preso nesta manhã em São José dos Campos

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A decisão das autoridades em pedir a prisão de Geraldo aconteceu após a Polícia Técnico-Científica anexar ao inquérito laudos relacionados à morte de Gisele. Indícios que constam em dois dos 24 laudos foram determinantes para isso:

Resultados de exames, como o necroscópico, o da exumação do corpo e o toxicológico foram cruciais para a delegacia concluir que Geraldo matou Gisele por ciúmes e possessividade. O oficial tem 53 anos; Gisele tinha 32.

Muitos dos laudos foram refeitos a pedido da própria investigação porque havia dúvidas sobre as circunstâncias da morte da soldado. Veja abaixo a importância de cada um deles para a investigação:

Necroscópico: concluiu que Gisele tinha marcas de dedos no pescoço e desmaiou antes de ser baleada e morta com um tiro na cabeça;

Trajetória do tiro: apontou que o disparo foi dado de baixo para cima e com o cano encostado na cabeça;

Exumação: vários exames foram refeitos no corpo, até mesmo complementares, como o necroscópico;

Toxicológico: não encontrou resquícios de álcool ou drogas, descartando a possibilidade de ela ter bebido ou estar dopada;

Residuográfico: não detectou pólvora nas mãos de Gisele nem nas de Geraldo;

De local de crime: Gisele foi encontrada caída e segurando a arma, o que é incomum em casos de suicídio _segundo peritos, o mais provável é que ela largasse a pistola.

Laudo mostra que PM morta em São Paulo tinha ferimentos no rosto e no pescoço

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Outros pontos que chamaram a atenção:

  • O fato de o coronel ter telefonado para a PM, para pedir socorro, apenas 29 minutos minutos após uma vizinha escutar um tiro;
  • O coronel havia dito que tinha tomado banho antes de a mulher atirar, mas quando socorristas chegaram ao imóvel o encontraram com o corpo seco;
  • Somente após ter ligado para um desembargador amigo dele, que foi à residência, é que Geraldo foi se banhar, desobedecendo inclusive orientação de policiais militares que estavam no local. Câmeras de segurança gravaram o encontro do coronel com o desembargador (veja vídeo nessa reportagem);
  • Exames indicaram a presença de sangue de Gisele no box do banheiro e em outros cômodos do apartamento. A perícia usou o luminol _equipamento com reagente químico, que indica substância hematóide contra a luz _ para achar as gotas de sangue;
  • Após a perícia na residência, três policiais militares mulheres foram até lá limpar o imóvel. Por causa dessa conduta, o coronel passou a ser investigado pela Corregedoria da PM também por abuso de autoridade. Geraldo havia pedido afastamento da corporação após a morte da esposa;
  • Sexológico: constatou que ela não estava grávida;
  • Reconstituição: conhecido tecnicamente como reprodução simulada, ele apresentará por meio de fotos as versões que Geraldo e testemunhas deram para o que ocorreu. Ainda não ficou pronto.

Viaturas da Corregedoria da PM chegam ao condomínio de São José dos Campos onde o tenente-coronel mora. — Foto: Reprodução/TV Globo

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