Vorcaro diz à PF que Master tinha problemas de liquidez e usava FGC como modelo de negócio
Dono do banco afirma que pressão por liquidez ocorreu após relatórios do Banco Central indicarem que pressão por mudança de regulação e do mercado interferiram no Master.
Por Andréia Sadi, Arthur Stabile, g1
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O banquiro Daniel Vorcaro disse em depoimento que o Master tinha problemas de liquidez e usava o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como modelo de negócio.
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O blog teve acesso à transcrição do depoimento dado no final de 2025 à delegada da PF responsável pelo caso.
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FGC é a sigla para Fundo Garantidor de Créditos. É um seguro mantido pelos próprios bancos que protege clientes em casos de intervenção ou quebra de uma instituição.
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O Banco Master foi liquidado pelo BC em novembro justamente por problemas de liquidez e sob a suspeita de fraudes bilionárias.
Vorcaro admite à PF que Master tinha problemas de liquidez e usava FGC como modelo de negócio
O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, disse em depoimento à Polícia Federal (PF) que a instituição tinha problemas de liquidez e usava o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como modelo de negócio.
O blog teve acesso à transcrição do depoimento dado em dezembro à delegada da PF responsável pelo caso.
No depoimento, segundo informações que constam da transcrição feita via inteligência artificial, o dono do Master afirmou que o banco atravessava uma crise de liquidez.
Isso acontece quando uma pessoa, empresa ou banco não consegue honrar compromissos ou pagar dívidas por falta de dinheiro em caixa.
Vorcaro afirmou à PF que isso era uma situação momentânea, e não estrutural, e que o Master cumpriu com todos os compromissos até 17 de novembro. A liquidação ocorreu um dia depois.
Segundo Vorcaro, os problemas de liquidez do banco foram provocados por mudanças em regras sobre o FGC. O dono do Master sugeriu que houve pressão de outros bancos. Ele não detalhou que mudanças seriam essas.
❗FGC é a sigla para Fundo Garantidor de Créditos. É uma espécie de “SOS” mantido com os recursos dos próprios bancos, que protege clientes em casos de intervenção ou quebra de uma instituição financeira. Em 30 anos, já foram 40 casos. O pagamento aos investidores do Banco Master deverá ser o maior da história do FGC: R$ 41 bilhões, divididos entre quem tinha aplicações de até R$ 250 mil.
Quando decretou a liquidação do Master, o BC apontou exatamente a falta de liquidez do banco, além de graves violações às normas do sistema financeiro.
Segundo Vorcaro, o plano de negócio do Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado, porque essa era a regra do jogo.
Ele disse que essas mudanças forçaram o Master a buscar outros meios de captar dinheiro no mercado, e que aí o banco foi alvo de uma campanha para destruir sua reputação.
Crise do Master
O Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro, mas os sinais mais claros de que havia algo errado surgiram em março, quando houve uma tentativa de venda para o Banco de Brasília (BRB).
Em agosto, o Conselho Monetário Nacional convocou uma reunião extraordinária e aprovou novas regras para aumentar a segurança do sistema. No mercado financeiro, essas mudanças foram entendidas como uma reação às práticas agressivas do Master para captar recursos e uma espécie de “freio” para evitar casos similares. As regras:
- Contribuição extra dobrada: bancos considerados mais arriscados vão pagar uma taxa maior para o Fundo Garantidor de Créditos. A taxa passa de 0,01% para 0,02% sobre o total dos depósitos que podem ser protegidos pelo fundo;
- Gatilho antecipado: as instituições financeiras pagavam essa taxa extra quando os depósitos cobertos pelo FGC chegam a 75% do permitido para a instituição. Com as novas regras, essa cobrança começa mais cedo, quando atingirem 60%;
- Mais títulos públicos, menos risco: quando os recursos da instituição ultrapassarem mais de dez vezes o seu patrimônio líquido, o excedente vai ter que ser investido em títulos públicos federais – que são mais seguros.
O banco vendia Certificados de Depósito Bancário (CDBs), um investimento de renda fixa em que o cliente empresta dinheiro a um banco e, em troca, recebe juros sobre o valor aplicado.
A rentabilidade pode ser pré-fixada (taxa definida no momento da aplicação) ou pós-fixada (atrelada a um indicador como o CDI).
As taxas oferecidas pelo Master em seus CDBs chamavam a atenção por oferecerem rentabilidade muito acima da média do mercado.
A estratégia do banco era vender muitos CDBs prometendo altos retornos. Bancos médios considerados saudáveis costumam remunerar seus CDBs na faixa de 110% a 120% do CDI. No entanto, as ofertas do Master avançaram muito além desse padrão.
O mercado foi desconfiando cada vez mais da capacidade do banco de pagar todos os investidores.
Especialistas afirmam que esse tipo de “supertaxa” costuma indicar que o banco perdeu acesso às formas mais baratas de financiamento.
Além disso, o Master tinha grande parte dos seus recursos aplicada em ativos considerados ilíquidos — que não podem ser transformados rapidamente em dinheiro —, como carteiras de crédito “fabricadas” e precatórios. Isso limitava a capacidade de gerar caixa no curto prazo. Daí o problema de liquidez para remunerar os investidores.
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No depoimento, Vorcaro afirmou que o Master chegou a originar de R$ 400 milhões a R$ 500 milhões por mês, mas que o tamanho foi reduzido para garantir liquidez. Um dos motivos foi uma comunicação feita pelo Banco Central em novembro de 2024, o que fez com que o Master montasse um plano de ação.
Para chegar nesses valores, Vorcaro disse à PF que o modelo de negócios do Master evoluiu para uma dependência agressiva da cessão de ativos e suporte do FGC e passou pelo foco em crédito consignado, a emissão de cédulas de crédito bancário (CCBs) e o uso de originadores terceirizados para aumentar o volume de negócios.
O dono do Master disse ter aportado quase R$ 6 bilhões de seu patrimônio pessoal para sustentar o modelo do Master durante a crise.
Ressarcimento do FGC a investidores do Master
O FGC é uma associação privada, sem fins lucrativos, que integra o Sistema Financeiro Nacional e atua na manutenção da estabilidade do sistema, na prevenção de crises bancárias e na proteção de depositantes e investidores.
Na prática, funciona como um fundo privado que atua como um seguro. É ele quem garante que os recursos depositados ou investidos em um banco permaneçam protegidos caso a instituição financeira enfrente alguma crise ou dificuldade.
Desde o dia 19, o FGC ressarce em até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ os correntistas e investidores que tinham recursos no Master. Cerca de 600 mil credores do Master já fizeram o pedido até a noite de segunda-feira (19).
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master — Foto: Reprodução
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master — Foto: Reprodução