“Não podemos aceitar a normalização dessa insegurança”, afirma mãe de vítima.

'Não é possível que se normalize essa insegurança', diz mãe de vítima

Por Cristiane Guimarães, Mariah Colombo, g1 PR e RPC — Cascavel


  • O Cenipa divulgou, nesta quinta-feira (23), o relatório final sobre a queda do avião da Voepass. O documento indica que 19 fatores contribuíram para o acidente.

  • Adriana Ibba, mãe da menina Liz Ibba dos Santos, afirma que o sentimento após as conclusões do relatório é de revolta com a empresa responsável pelo avião.

  • O acidente ocorreu em 9 de agosto de 2024, quando a aeronave caiu em Vinhedo, matando 62 pessoas.

Avião com 62 pessoas a bordo cai em Vinhedo

Avião com 62 pessoas a bordo cai em Vinhedo

Adriana Ibba, mãe da menina Liz Ibba dos Santos, foi uma das familiares das 62 vítimas da queda do voo 2283 da Voepass que teve acesso ao relatório final da investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão da Força Aérea Brasileira (FAB), antes da divulgação oficial do documento.

Segundo ela, o sentimento após as conclusões do relatório vai de encontro com aquilo que as famílias vinham sentindo desde o acidente.

“O relatório final aponta situações que a gente fica ainda mais estarrecida, porque não é possível que um dono de uma empresa, equipes, colaboradores assumam esse risco [que foi assumido]. Não é possível que se normalize essa insegurança. É lamentável, e esse é o nosso sentimento de revolta por essa empresa criminosa que matou os nossos familiares”, desabafou Adriana à RPC, afiliada da TV Globo no Paraná.

No dia 9 de agosto de 2024, o avião saiu de Cascavel, no oeste do Paraná, e caiu em um condomínio em Vinhedo, no interior de São Paulo. As 62 pessoas a bordo – 58 passageiros e quatro tripulantes — morreram.

Rafael Fernando dos Santos e Liz Ibba dos Santos passariam o dia dos pais em Florianópolis — Foto: Arquivo pessoal

Rafael Fernando dos Santos e Liz Ibba dos Santos passariam o dia dos pais em Florianópolis — Foto: Arquivo pessoal

Nesta quinta-feira (23), quase dois anos depois da queda, o Cenipa divulgou o relatório final, que reúne a análise técnica do acidente e recomendações para aumentar a segurança da aviação e evitar novas tragédias. Após a apresentação para familiares das vítimas, o relatório foi apresentado à imprensa.

Ele apontou que ao menos 19 fatores foram contribuintes para a queda da aeronave.

À RPC, Adriana Ibba destacou que o relatório apontou várias falhas sistêmicas por parte da companhia aérea e na fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

“A Anac realizou várias auditorias antes do acidente no dia 9 de agosto de 2024, por exemplo, e nada foi feito. A recomendação do Cenipa para a Anac é que a agência reforce e entenda ali o seu sistema, para que haja gerenciamento de crise, ou seja, para que de fato eles atuem antes de uma [nova] tragédia acontecer”, afirmou Adriana.

As investigações apontaram que as auditorias e inspeções realizadas pela Anac no operador antes do acidente revelaram diversas não conformidades técnicas e procedimentais.

No relatório final, o Cenipa recomenda uma série de ações para a Anac, entre elas, a revisão e atualização dos processos de gerenciamento de risco, em especial os decorrentes da vigilância continuada, a fim de auxiliar na tomada de decisões estratégicas para mitigar os riscos no ambiente fiscalizado pela agência.

A Voepass informou que vai se manifestar após ter acesso à íntegra do relatório final.

LEIA HISTÓRIAS DE OUTRAS VÍTIMAS DO ACIDENTE:

Como foi a queda

Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 — Foto: Nelson Almeida/AFP

Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 — Foto: Nelson Almeida/AFP

O avião saiu de Cascavel às 11h46 e pousaria em Guarulhos.

Segundo a Força Aérea Brasileira (FAB), o voo ocorreu dentro da normalidade até as 13h20, mas, a partir das 13h21, a aeronave não respondeu às chamadas da torre de São Paulo, bem como não declarou emergência ou reportou estar sob condições meteorológicas adversas. A perda do contato radar ocorreu às 13h22.

A aeronave pertencia à companhia aérea Voespass Linhas Aéreas, antiga Passaredo, e se tratava de um avião turboélice modelo ATR-72.

Logo após a tragédia, duas investigações foram abertas. O Cenipa passou a apurar os fatores que contribuíram para a queda e indicar medidas para evitar novos acidentes.

Já a Polícia Federal iniciou um inquérito para apurar se houve crime e produzir um laudo próprio sobre o caso, já que o relatório do Cenipa não pode ser usado para responsabilização criminal.

Avião que caiu em Vinhedo — Foto: Reprodução/TV Globo

Avião que caiu em Vinhedo — Foto: Reprodução/TV Globo

Um mês depois, o Cenipa divulgou o relatório preliminar da investigação. O documento confirmou que a aeronave enfrentou condições severas de formação de gelo e registrou que a tripulação relatou uma possível falha no sistema antigelo durante o voo.

Também mostrou que o sistema foi acionado e desligado várias vezes ao longo da viagem, mas sem concluir se isso ocorreu por ação dos pilotos ou por outro motivo.

Enquanto as investigações avançavam, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) suspendeu as operações da Voepass, em março de 2025. Três meses depois, cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da empresa, impedindo a companhia de operar voos comerciais.

Em 30 de junho de 2026, familiares das vítimas tiveram acesso pela primeira vez às transcrições das conversas gravadas na cabine durante uma reunião com a Polícia Federal.

Quase dois anos depois da tragédia, o Cenipa concluiu as investigações e divulgou o relatório final, que reúne a análise técnica do acidente e recomendações para aumentar a segurança da aviação e evitar novas tragédias.

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